Minha analista deixa algumas edições da Bravo! para distração pré-sessão, em sua salinha de espera. A mais recente deve ser de meados do ano passado, vale ressaltar. Além do cansaço de ler notícia velha, as revistas conseguem proporcionar outra importante frustração, porque a esmagadora maioria dos trabalhos de arte a que fazem referência acontece a léguas dessas redondezas baianas. Talvez até seja esse o objetivo de mantê-las à mão, vai saber: “queridos, acrescentem essas às milhares outras frustrações que vocês costumam carregar por aí”.
Por conta da experiência de assistir a duas apresentações do Teat(r)o Oficina, durante sua última passagem por Salvador (olhe, só pra me desmentir quanto à oferta de atividades em minha cidade), uma matéria sobre o teatro brasileiro tem ocupado meu tempo. Não que entenda de teatro ou queira me tornar entendedor, mas porque homenageia, segundo a mesma, e Romualdo concorda, os maiores e inovadores diretores em atividade no Brasil: José Celso Martinez e Antunes Filho. Na verdade, a alcunha não faz muito sentido quando se considera as mais de quatro horas que se contorce sem intervalo numa arquibancada desconfortável, perigando adentrar a madrugada, para ver um velhinho despudorado enfiar o dedo onde quer que deseje nos corpos dos seus companheiros de cena (isso, no caso de Zé Celso). Ao menos, não pra mim. Não sei como se desenrola a vibe de Antunes, e nada contra as dedadas, mas, querendo falar de inovação, só se for a da forma que minha coluna assumiu ao “final” que impusemos ao espetáculo.
O que tem chamado a atenção, retomando, não é conhecer a história do teatro, mas os depoimentos de dois atores a respeito de sua formação e convivência com essas sumidades. Eles descrevem vivências muito ricas, das quais aproveitaram o máximo para o seu desenvolvimento profissional e pessoal. Isso implicou em dedicação exclusiva a intermináveis e exigentes ensaios, chegando ao esgotamento físico e mental, e, muitas vezes, a algo parecido com o sentimento de humilhação banhado a suor, lágrimas e outras tantas secreções. Os dois terminam por admitir que o estilo de seus mentores lembra a tirania. Evidente que trataram logo de complementar com: “tirania, porque não querem menos do que a libertação dos desejos, da autonomia dos atores e da verdade do texto”. Chouette, a dor fortalece e enobrece.
É aí que se encontra o ponto de gancho. Gostaria de, alcançando certo estágio na minha trajetória, ter alguém para relatar a qualidade do meu trabalho, resultado inevitável do meu esforço e investimento, da paixão pelo que faço; que os poucos sobreviventes e capazes de articular frases me retratem como um tirano, um desalmado, a son of a bitch, mas que justifiquem em seguida: “sua perversão era sinal de excelência”...
Hmm, não havia um jeito melhor de dizer que gostaria de me esforçar mais?
[...] Não.
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