O Procurado conta a história de Wesley Gibson, gerente de contas que, da noite pro dia, passa de “o babaca mais insignificante do século XXI” (é como aparece na legenda) a “assassino mais promissor de uma fraternidade milenar de tecelões/grupo de extermínio”. Tá, coisas de HQs cujas adaptações rendem dinheiro aos estúdios. Nada contra, a propósito.
Há uma cena do filme à qual tenho retornado neste momento em que me encontro. Ela se estende e se repete por um bom tempo e retrata o ingresso sofrido de Wesley na tal sociedade – algo muito longe do que ele poderia esperar, já que teve seu talento reconhecido de pronto e recebeu convite formal pra fazer parte da galera.
Depois de se render à proposta – animado pelo poder, sim, pela possibilidade de quebrar a rotina à qual sua vida ficou reduzida, ok, mas, principalmente, pela chance de dar uns guenta na personagem de Angelina Jolie – ele estranha por ter de apanhar todos os dias como parte de seu treinamento (o objetivo era outro, porém, defendo a teoria de que, mesmo a maternidade tendo suavizado Angelina, é bom dar uma calejada antes de partir pra cima).
O apelo dessa passagem está no derramamento de sangue e na aparente falta de motivo com que se apanha; na solicitude com que se se permite apanhar a troco de encontrar sentido no final das contas e deixar de se perceber um merda. No filme, funciona: eventualmente, Wesley acaba “acertando” a resposta que os socos perguntavam, completando uma etapa do plano de seus algozes/novos melhores amigos, que esperavam a emergência de um sujeito e, numa mesma cajadada, de sua causa; de uma pergunta, que o movesse de forma tão profunda que evitasse questionamentos e mascarasse a manipulação.
O cinema pode provocar esse efeito (aguarda-se que escrever um blog também); uma análise pode estimulá-lo (esqueçam a manipulação); uma orientação de monografia para pós-graduação, ô, pode promovê-lo... acontece que a dor pode ser maior do que na pancadaria. A gente chega todo feliz com o que já conseguiu ver/dizer/produzir e, bam, aparece um novo argumento e, quando dá tempo, você se vê cuspindo um dente, quase sem reservas de dignidade.
Pelo andar da carruagem, o desfecho do "meu momento" não se afasta muito da resposta de Wesley: “Não sei quem eu sou!”. A diferença é que isso ainda não revelou uma causa... e la Jolie não me é tão disponível.
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